O raro, peculiar e característico na Homeopatia

Ela era uma advogada de mais de sessenta anos de idade. Inteligente, desafiante, cheia de energia mental. Havia me procurado para uma consulta homeopática, pois sofria de um longo processo de artrite reumatoide que a estava invalidando, usava bengala e movimentava-se com muita dificuldade, sofrendo de dores atrozes.

Seu olhar era inteligente, grande polemista, formou-se já mais velha e era temida nos debates verbais pela lógica contundente e rápida. Gostava de visitar delegacias e defender os presos dos maus tratos do sistema penal.

Mediquei-a, levando em conta os dados de sua história de vida,  suas características físicas, além do tipo de patologia que sofria.

A primeira prescrição do remédio provocou-lhe intensa e demorada agravação dos seus sintomas, o que pode acontecer em enfermidades de longa data e com profundas alterações estruturais. No entanto, após sua piora, retornou ao mesmo estado inicial, o que me levou à conclusão de que deveria estudá-la e observá-la melhor e procurar um medicamento mais adequado.

“E o que mais?”

Eu insistia, procurando não dirigir as perguntas para não influenciar nos fatos reais que pertenciam à sua história.

Aí, contou-me algo curioso, era um sintoma que a acompanhava desde criança, raro e peculiar, por isso não me contara, fazia parte de sua natureza, assim pensava. Ela não podia ver uma faca de pontas, que tinha um estranho impulso de esfaquear alguém. Nunca havia feito, nem tentado isso, era contra a sua índole, mas esse pensamento a perturbava profundamente. Já tinha presenteado muitas facas para seus amigos, que ela havia ganhado, pois não podia dormir sabendo ter uma faca de ponta na sua cozinha.

O sintoma era claro, impulso de matar com uma faca. Havia historicidade e intensidade, além de ser raro, peculiar e característico, fatos importantes na prescrição de um medicamento homeopático. Usei-o como sintoma diretor, isto é, o seu medicamento deveria necessariamente englobar esta característica, e incorporei os outros elementos de seu estudo para escolher outro medicamento.

O resultado foi maravilhoso, apresentou a esperada piora inicial dos sintomas, não tão demorada, seguida de evidente melhora física e mental. Retornou à consulta após 40 dias, sem a bengala, andando bem melhor e livre das dores que a acompanhavam por anos. E tudo isso com uma única dose, o estímulo certo para que o próprio organismo encontre o seu caminho de cura.

Hahnemann orienta em Organon da arte de curar que o sintoma raro, peculiar e característico deve orientar na escolha do medicamento curativo do caso. A história acima, extraída de nossa clínica, assim como em muitos outros pacientes, atesta a veracidade desta orientação. Esse tipo de sintoma ajuda a individualizar o paciente, requisito básico para o sucesso terapêutico na Homeopatia.

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Hamilton Camargo Rodrigues

Graduação em Medicina pela Unifesp – Escola Paulista de Medicina
Especialização em Homeopatia (AMHB), Cirurgia Geral e Proctologia ( SBCP)
Organizou e Coordenou o Serviço de Colo-Proctologia da Universidade Federal de Uberlândia
Docente e coordenador de cursos de pós-graduação de Homeopatia na Associação Paulista de Homeopatia, na Sociedade Médica de Uberlândia e no Centro de Especialização em Homeopatia de Londrina (CEHL)
Atualmente, docente do CEHL, consultório de Homeopatia e Proctologia e Ambulatório do SUS de Proctologia.

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